Ecossitemas de Inovação e Capital Social
Todo prefeito quer o seu Vale do Silício. Basta olhar os discursos de posse e os planos diretores de qualquer cidade média brasileira nos últimos dez anos: parque tecnológico, hub de inovação, incentivo fiscal para startups. A receita parece simples — construa prédios modernos, ofereça isenção de impostos, chame investidores para um evento de lançamento com drinks e discurso inspirador. O resultado, na maioria das vezes, é uma sala vazia com placa de “coworking” na porta.
O problema não é falta de visão, nem de recursos. É que estamos tentando comprar algo que não está à venda.
O ingrediente que não aparece na planilha
Pesquisadores de desenvolvimento regional vêm insistindo há décadas em algo que gestores públicos parecem sistematicamente ignorar: o motor de um ecossistema de inovação não são os prédios nem o capital financeiro disponível, mas o capital social — a rede de confiança e reciprocidade entre empreendedores, investidores, universidades e governo. É o sociólogo Robert Putnam, entre outros, quem populariza a ideia de que esse capital não pertence a ninguém isoladamente: ele existe entre as pessoas, e cresce justamente pelo uso repetido.
Isso deveria mudar completamente como pensamos política de inovação. Mas não muda, porque confiança não aparece em nenhum indicador de impacto que se apresente em powerpoint de secretaria.
Regiões emergentes — sejam cidades médias brasileiras ou polos tecnológicos em formação na África e na Ásia — raramente sofrem por falta de boas ideias. Sofrem porque não existe malha social madura o suficiente para sustentar cooperação entre atores que, à primeira vista, deveriam competir. Sem histórico de comportamento consistente, sem reputação construída ao longo de anos, ninguém arrisca compartilhar conhecimento com medo de ser copiado, e nenhum investidor aposta em quem não conhece.
A rede é mais importante que os nós
Há ainda uma camada que raramente entra nesse debate, e que talvez devesse: a do físico Fritjof Capra, para quem todo sistema vivo — de uma célula a uma floresta — se organiza como redes dentro de redes, sem centro de comando único. Aplicada a ecossistemas de inovação, essa lente sugere algo desconfortável para quem gosta de anunciar “empresas âncora” e “polos de excelência”: nenhum ator isolado sustenta um ecossistema. Nem a universidade mais renomada, nem o fundo de investimento mais robusto, nem a empresa mais bem-sucedida da região. O que sustenta é a densidade das conexões entre eles — e a capacidade dessa rede de se renovar sozinha, gerando continuamente novos empreendedores e mentores a partir de seus próprios membros.
É por isso que um ecossistema pode ter atores individualmente confiáveis e, ainda assim, ser uma rede doente: fechada demais, hierárquica demais, incapaz de absorver gente nova ou de se reorganizar quando a economia vira ou uma tecnologia disruptiva aparece. Confiança sem abertura vira clube fechado. E clube fechado não inova — se protege.
Onde o dinheiro público deveria ir
Se essa leitura estiver certa, boa parte do gasto público em inovação está mal direcionado. Subsidiar startups isoladas tem efeito limitado quando o ecossistema ao redor delas é raso. O que de fato multiplica resultado é investir na infraestrutura relacional que ninguém corta fita para inaugurar: programas de mentoria entre gerações de empreendedores, redes de alumni, associações setoriais, intercâmbios entre polos regionais. Coisas chatas, difíceis de fotografar, que não cabem em um anúncio de secretaria — mas que são exatamente o tipo de investimento que gera efeito cascata para toda uma cadeia de empreendedores, não apenas para quem recebeu o cheque.
Paciência não é uma política pública popular
O maior obstáculo, no fim das contas, é temporal. Uma rodada de investimento se fecha em semanas. Confiança entre atores de um ecossistema é cumulativo e leva algum tempo — por meio de interações repetidas e da observação de comportamento consistente de seus atores.
Ecossitemas de inovação bem-sucedidos são aqueles onde o investimento em Capital Social precedeu a inauguração de prédios, salas. A confiança entre os atores é construída ao longo do tempo, gerando sinergia entres seus objetivos e propósitos. O desenvolvimento de um território só é possível com pessoas engajadas, estimuladas, conscientes de suas forças e fraquezas. Projetos, planos de ação surgirão a partir daí.
Silvio Luiz Belbute
Coordenador da Softsul – Núcleo Tramandaí
Jornalista MTb 0018790/RS




