O litoral norte gaúcho não pode perder o bonde da energia limpa

Por muito tempo, o litoral norte do Rio Grande do Sul foi pensado, sobretudo, como destino de veraneio: praias cheias em janeiro, comércio sazonal, uma economia que infla no verão e esvazia no inverno. Essa imagem, no entanto, já não corresponde ao potencial real da região. Entre Torres, Tramandaí, Arroio do Sal e os municípios vizinhos, existe hoje um ativo estratégico que pouca gente enxerga com a devida atenção: um dos melhores regimes de vento do Brasil, tanto em terra quanto no mar, e uma janela concreta para se tornar protagonista na produção de hidrogênio verde.

Um potencial que os números já confirmam

Não se trata de otimismo vago. Segundo o Atlas de Energia Eólica do Rio Grande do Sul, o potencial eólico onshore do estado chega a 245 gigawatts em torres de 150 metros, o maior entre todas as unidades da federação — e o offshore, no oceano, soma cerca de 80 gigawatts, considerando ventos medidos a 100 metros de altura ao longo dos mais de 600 quilômetros de costa entre o Chuí e Torres. Para dar a dimensão exata do que isso significa: toda a capacidade eólica onshore instalada atualmente no Brasil inteiro gira em torno de 31 gigawatts.

O litoral norte está no centro dessa vocação. A Petrobras já instalou uma boia equipada com sensor LiDAR em Tramandaí para monitorar, por três anos, o comportamento dos ventos em alto-mar — um investimento que só faz sentido porque a região é considerada uma das mais favoráveis do país para a geração eólica marítima. E não é a única gigante de energia de olho na área: a Shell também protocolou, junto ao Ibama, licenciamento para um parque eólico offshore no litoral gaúcho, dentro de um pacote de projetos que soma mais de 17 gigawatts em todo o país.

Do vento ao hidrogênio: o passo que falta dar

Ter vento abundante é condição necessária, mas não suficiente. O verdadeiro salto de desenvolvimento está em transformar essa energia em algo que se armazena, se transporta e se exporta — e é exatamente aí que entra o hidrogênio verde. O processo é conhecido: eletricidade renovável quebra a molécula da água por eletrólise, separando hidrogênio e oxigênio, sem emissão de carbono. O resultado é um combustível que serve à indústria química, à siderurgia, ao agronegócio (na forma de amônia e ureia verdes) e a mercados exportadores cada vez mais exigentes em relação à origem da energia que consomem.

O Rio Grande do Sul já sinalizou que quer entrar nessa corrida. O governo do estado assinou memorandos de entendimento com empresas como Mingyang, Mitsubishi Power e Ventos do Atlântico para projetos de hidrogênio verde, eólica onshore e offshore, energia solar e sistemas de baterias, e contratou a consultoria McKinsey para mapear a viabilidade comercial do setor. O estudo identificou municípios com maior potencial, entre eles pontos do litoral e do interior, e o estado hoje conta com mais de uma dezena de memorandos firmados com empresas interessadas em instalar plantas de H2V.

O problema é que, enquanto isso, outros estados avançam mais rápido. O Rio Grande do Norte já emitiu a primeira licença ambiental do país para uma planta comercial de hidrogênio verde — um projeto de R$ 12 bilhões, com terminal portuário próprio, em Areia Branca — e lançou um Atlas de Hidrogênio Verde que mapeia com precisão seus custos de produção, hoje competitivos até com os europeus. O Ceará soma dezenas de memorandos de entendimento em torno do Porto de Pecém. A Bahia inaugura, em Camaçari, a primeira planta industrial de hidrogênio verde do Brasil. O Nordeste corre na frente porque uniu potencial natural a marco regulatório, infraestrutura portuária e agilidade de licenciamento.

O gargalo é a infraestrutura, não o vento

O litoral norte gaúcho carrega, ao mesmo tempo, sua maior vantagem e seu principal obstáculo histórico: nunca teve porto de água profunda. Estudos da UFRGS já indicavam que a plataforma continental na região de Torres e Arroio do Sal é mais profunda do que em outros pontos do litoral gaúcho, o que motivou levantamentos batimétricos da Marinha para avaliar a viabilidade de um terminal na área. Um porto ali reduziria drasticamente a distância entre geração de energia, produção de hidrogênio e escoamento para exportação — hoje concentrada quase toda no Porto de Rio Grande, no litoral sul.

Essa lacuna está deixando de ser apenas um estudo de viabilidade para se tornar projeto concreto. O Porto Meridional, empreendimento privado orçado em cerca de R$ 6 bilhões, está em fase avançada de licenciamento ambiental junto ao Ibama para ser instalado em Arroio do Sal, numa área de 80 hectares próxima à praia da Rondinha Nova. O projeto prevê um terminal marítimo onshore, fora da faixa de areia, com capacidade para movimentar até 53 milhões de toneladas de carga por ano e geração estimada de 1,5 mil empregos diretos — além de milhares de indiretos. Já foi declarado de utilidade pública pelo governo do Estado e conta com aval da Marinha, do Ministério de Portos e Aeroportos e da Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq).

O Ibama já considerou o Estudo e Relatório de Impacto Ambiental (EIA/Rima) apto para análise e autorizou a etapa de audiências públicas, realizadas em junho deste ano em Arroio do Sal e em Porto Alegre — passo que antecede a emissão da licença prévia. Segundo os responsáveis pelo projeto, cumprido esse cronograma, a construção poderia começar ainda em 2026.

Isso não é um detalhe técnico menor. É a diferença entre o litoral norte ser apenas um fornecedor de energia bruta para plantas instaladas em outra região, ou se tornar ele mesmo um polo industrial, com geração de empregos qualificados, arrecadação municipal e cadeia produtiva local. A experiência de Areia Branca, no Rio Grande do Norte, mostra bem esse caminho: o mesmo município que hoje é o maior polo salineiro do país começa a desenhar um segundo ciclo econômico a partir do hidrogênio verde, com escala industrial e terminal portuário próprios. Com o Porto Meridional avançando no licenciamento, o litoral norte gaúcho tem, pela primeira vez, uma peça concreta que pode encaixar geração eólica, produção de hidrogênio verde e escoamento portuário numa mesma cadeia regional — e não mais depender exclusivamente da infraestrutura do litoral sul.

A quádrupla hélice que pode articular esse futuro

Vento, hidrogênio e porto são a base física dessa transformação, mas nenhuma dessas peças se converte em desenvolvimento duradouro sem governança e articulação institucional. É aí que ganha relevância a iniciativa ITECNORTE (Inovação, Tecnologia e Ciência para o Litoral Norte), coordenada pela Softsul — associação gaúcha de apoio ao desenvolvimento de software — e já apresentada a lideranças e câmaras municipais da região.

A proposta do ITECNORTE é justamente costurar o que falta: uma governança colaborativa baseada no modelo de quádrupla hélice, unindo universidades e instituições de ensino, empresas e entidades empresariais, poder público e sociedade civil organizada em torno de um mesmo objetivo — transformar o litoral norte em polo de inovação, ciência e tecnologia, e não apenas em fornecedor de matéria-prima energética para projetos decididos em outros lugares. A iniciativa já soma adesões formais de entidades como a CDL de Tramandaí e Imbé e a AICITI, além de representantes do poder público municipal e estadual, e defende inclusive o desmembramento do litoral norte da atual região metropolitana de inovação do estado, para que a região tenha estrutura própria de captação de recursos e atração de investimentos tecnológicos.

O ponto central dessa agenda é evitar que o litoral norte repita, na transição energética, um problema que já vive há décadas com o turismo: gerar riqueza sazonal sem reter conhecimento, talento e valor agregado na região. Sem universidades formando mão de obra qualificada para operar parques eólicos offshore e plantas de hidrogênio, sem empresas locais capacitadas para entrar nas cadeias de fornecimento desses projetos, sem sociedade civil informada e engajada no debate sobre licenciamento e uso do território, e sem poder público municipal preparado para atrair e regular esses investimentos, o risco é que vento, hidrogênio e porto se tornem apenas ativos explorados por capital de fora, com pouco retorno estrutural para quem vive ali. Iniciativas como o ITECNORTE são exatamente o tipo de articulação capaz de transformar essa oportunidade energética em ecossistema tecnológico permanente — e não em mais um ciclo de boom econômico que passa e não deixa lastro.

Uma janela que não fica aberta para sempre

Segundo a consultoria Rystad Energy, mais de mil projetos de hidrogênio verde já foram anunciados no mundo, somando cerca de US$ 350 bilhões em investimentos, com o Brasil entre os dez países que mais concentram esses anúncios. Chile, Egito, Namíbia, China, Estados Unidos e Alemanha disputam a mesma corrida. Isso significa que capital e atenção internacional têm destino certo — e tendem a se fixar onde encontrarem, primeiro, segurança jurídica, licenciamento ágil e infraestrutura logística pronta.

O litoral norte gaúcho tem o vento. Tem a proximidade com centros de pesquisa como a UFRGS. Tem uma economia que precisa, com urgência, diversificar sua dependência do turismo sazonal. Tem, pela primeira vez, um projeto portuário em estágio avançado de licenciamento. E começa a ter, com o ITECNORTE, um espaço de articulação entre universidades, empresas, poder público e sociedade civil capaz de transformar esses ativos isolados em ecossistema. Falta decisão política e continuidade institucional para conectar as peças: destravar rapidamente as etapas finais do licenciamento do Porto Meridional, atrair para a região parte dos memorandos de entendimento de hidrogênio verde já assinados pelo estado, fortalecer iniciativas de governança como a quádrupla hélice proposta pelo ITECNORTE, e tratar essa cadeia — vento, hidrogênio, porto e inovação — não como pauta distante de Porto Alegre ou do litoral sul, mas como projeto de desenvolvimento territorial concreto para os municípios da faixa norte.

A transição energética não vai esperar. Se o litoral norte gaúcho não organizar sua própria resposta a essa oportunidade, o vento que hoje sopra sobre suas praias vai continuar sendo, para efeitos econômicos, apenas paisagem — enquanto outras regiões do Brasil e do mundo transformam o mesmo recurso em indústria, emprego e exportação.

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Silvio Luiz Belbute

Coordenador do Núcleo Tramandaí da Softsul
Silvio Belbute é um profissional multidisciplinar com mais de 30 anos de experiência. Atua em TI (projetos pioneiros), governança (UNESCO), jornalismo, pesquisa social e liderança comunitária no RS. Escritor e terapeuta sistêmico, dirige a Holos, integrando tecnologia e desenvolvimento humano.

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