Por Vitor Soares, consultor de Design Estratégico e Impacto Cultural da Softsul.

Participar do SecOps Summit 2026 representando a SOFTSUL não foi apenas sobre “ver ferramentas de segurança”, mas sobre observar como a gente constrói coerência em um ecossistema cada vez mais entrópico. Como designer estratégico, meu radar não busca só o firewall da moda, mas a lucidez sistêmica necessária para que a tecnologia faça sentido e seja sustentável.
O evento no Centro de Eventos da PUCRS deixou claro: a cibersegurança saiu do porão do TI e virou a espinha dorsal da estratégia de qualquer negócio sério, virou cultura.
Separei os principais destaques e abordagens presentes nas palestras, corredores e estandes do Secops Summit 2026:
1. A Era da IA Agêntica: Do Código à Defesa
A grande “virada de chave” deste ano. Não estamos mais falando de chatbots que respondem dúvidas, mas de IA Agêntica que toma decisões de defesa em tempo real.
Se em anos anteriores a Inteligência Artificial Generativa era uma novidade, em 2026 ela é a protagonista operacional. A percepção colhida nos palcos Cyber Trends e Tech é de que estamos em uma “corrida armamentista” de algoritmos.
- Impacto no Software: O desenvolvimento agora exige a integração de agentes de IA capazes de realizar autoatendimento de segurança e remediação de código em tempo real.
- Desafio: A regulamentação não pode ser um freio, mas um guia para evitar que a “IA das sombras” (Shadow AI) crie vulnerabilidades invisíveis nas organizações.
- O olhar do Designer: Pra mim o desafio está no design de processos. Como manter a governança e a transparência quando o sistema começa a se auto ajustar “sozinho”? A segurança agora é sobre desenhar arquiteturas que aprendem sem perder a integridade.
2. Soberania Digital: “Se Você Não Paga pelo Produto, Você é o Produto”
Houve um debate fortíssimo sobre soberania tecnológica no contexto brasileiro.
Discutiu-se a necessidade de o Brasil, e especificamente o polo tecnológico gaúcho, desenvolver e manter infraestruturas de dados que não dependam exclusivamente de provedores estrangeiros.
- O Cenário: A ascensão de nuvens nacionais e a proteção de dados sensíveis em contextos de geopolítica instável reforçam o papel das associações de TI na promoção de tecnologias locais resilientes.
- O olhar do Designer: Para nós da SOFTSUL, isso toca na autonomia do nosso polo de software. Para a sociedade, é sobre autonomia sobre o próprio pensamento.
Não é só sobre nuvem, é sobre o poder de decisão sobre a infraestrutura. É a busca por uma independência que garanta que o nosso ecossistema não seja apenas um “usuário”, mas um protagonista resiliente, pois “Se Você Não Paga pelo Produto, Você é o Produto”.
3. Privacy by Design: O Código Espelhando a Cultura
A LGPD finalmente “desceu” para o código. No palco de conexões, ficou óbvio que privacidade não é um PDF jurídico, é arquitetura.
- DevSecOps: A tendência é o shift-left total, onde a privacidade é injetada nas pipelines de automação desde a primeira linha de código, reduzindo o custo de incidentes e aumentando a confiança do usuário final.
- O olhar do Designer: Traduzir leis em pipelines de DevOps é o ápice do design de processos. Quando a privacidade nasce com o produto (e não é colada depois com fita isolante ou chiclete), o valor gerado para o usuário é infinitamente maior.
4. A Cibersegurança como Valor Estratégico
“Segurança é custo ou investimento?”, essa pergunta finalmente morreu.
O evento reforçou que o CISO (Chief Information Security Officer) agora divide a mesa com o CEO e o Conselho.
- Quantificação de Risco: A capacidade de traduzir ameaças técnicas em impacto financeiro é a competência mais demandada. Para as empresas de software associadas à SOFTSUL, isso significa que vender segurança é, acima de tudo, vender continuidade e confiança de marca.
- O olhar do Designer: Agora o papo é sobre resiliência. O CISO agora precisa falar a língua do valor estratégico. Para quem desenha negócios, a segurança é o que garante que a estrutura não colapse sob pressão. É o “alicerce invisível” que permite a inovação ousada.
5. O Fator Humano e a Cultura do Risco
Vi muita gente falando que a maior vulnerabilidade de 2026 é cultural.
- Estrutura e Responsabilidade: Aqui, o foco sai do “usuário como erro” e vai para o “sistema como falha de interface”. Segurança precisa ser invisível e intuitiva; se o sujeito precisa de um manual de 50 páginas para não ser hackeado, o design falhou na sua função básica de proteção e usabilidade.
- Olhar do Designer: De nada adianta um sistema perfeito se o comportamento humano é incoerente. O design de serviço aqui é fundamental: precisamos desenhar sistemas que sejam fáceis de usar com segurança, porque se for difícil, o usuário vai dar um “jeitinho”, e é aí que a estrutura quebra.
6. Resiliência em Setores Críticos: Agro, Indústria e Cidades
A verticalização das discussões mostrou que a superfície de ataque se expandiu para o mundo físico.
- IoT e OT: Vimos casos práticos de segurança em drones agrícolas e sistemas de mobilidade urbana. Proteger o software que controla o mundo físico (sistemas embarcados e automação) é a nova fronteira da ciberdefesa.
- Olhar do Designer: Estamos desenhando a infraestrutura da vida. O design estratégico aqui atua na antecipação de cenários catastróficos em sistemas complexos. Não é apenas proteger dados, é garantir a integridade de fluxos vitais, comida, energia e transporte. É a cibersegurança atuando na sobrevivência humana. Aqui, também poderíamos falar de sustentabilidade…
Conclusão: A Busca pela Lucidez Sistêmica.
Minha percepção final após esses dias de SecOps Summit é que a cibersegurança atingiu seu estado de maturidade arquitetural. Não estamos mais apenas “tapando buracos” em softwares; estamos projetando a cultura que sustenta a sociedade no mundo digital e físico.
Para a SOFTSUL, ou melhor as empresas de software, o desafio é liderar essa transição: sair da visão fragmentada de “proteção de arquivos” para uma visão holística de resiliência de ecossistemas. Como designer, entendo que a segurança é o elemento que dá forma e viabilidade à inovação. Sem ela, a estrutura é frágil; com ela, desenhada de forma coerente e lúcida, a tecnologia finalmente cumpre seu papel de gerar sentido e progresso seguro para todos.


